terça-feira, 29 de setembro de 2015

Na falta de profetas que venham os poetas. 37

Não havendo

profetas e profecias,

o povo se corrompe,

diziam os antigos.



         Se não existir mais profetas,

         quem vai iluminar,

         quem vai acender a chama

         do fogo que queima?



Então, para nosso bem

se não tem mais profetas

temos que produzi-los.



Mas ninguém mais arrisca ser profeta.

É perigoso.

Há muita exposição.

Há muita incompreensão.

É difícil interpretá-los

de acordo com os nossos interesses. 



Mas temos que dar um jeito.

Somos brasileiros.

Damos um jeitinho.



         Olhem, vejam

         estão por aí,

         profetas disfarçados

         de poetas.



A função de poeta

se identifica

com a dos antigos profetas.



Vejo na personalidade dos poetas

a incorporação do peso da existência humana.

Até parece

que querem carregar os conflitos

e desequilíbrios

de todas as pessoas,

nas suas próprias costas.



Não se parecem com alguém lá de longe,

trazido para a memória,

para bem pertinho de nós,

os profetas?



O poeta escreve,

e cada um se lê

naquilo que ele escreveu.



Mais do que qualquer outro poeta,

um é o grande Poeta: Deus, nosso Pai,

o criador deste universo todo,

com todo potencial de rimas

e harmonia que há no cosmo todo,

nas pessoas

e nos ideais

prometidos por Ele.



É carinhoso saber assim.

É afetivo que seja desta forma.



O poeta

possui algumas características

que são proféticas,

pois se empenham sempre

na busca do sentido,

do significado.



Procuram penetrar na profundidade,

descobrindo as pérolas preciosas

e tesouros escondidos.



Domam a rotina,

chicoteiam as mesmices,

constroem escadas imaginárias

desejando tirar-nos

dos buracos da existência,

insistindo no destino superior

da humanidade.



Ao fazer poesia da vida,

o poeta descreve a própria vida

na sua simplicidade

e, ao mesmo tempo descomplica

as tramas nas quais nos envolvemos.



Quantas vezes nos sentimos anestesiados,

insensíveis às realidades chocantes,

achando normal o que é agressivo,

apático o que merece resposta emotiva.



O poeta e a poesia

devolvem-nos a natureza crua,

original, sem máscaras.



O poeta e a poesia

devolve a criança

que se perdeu no meio dos adultos.



O poeta e a poesia

despertam-nos do sono,

revelando alegria

na experiência do sentir-se vivo.



Nas linhas e entrelinhas

da poesia,

aparece

o sentido oculto

que nossa personalidade

anseia realizar.



O poeta e a poesia

aciona a vontade

de ser livre como um pássaro,

e voar por todos os espaços do mundo,

curtindo todos os lugares lindos

que a sensibilidade treinada

aprendeu a contemplar.



Na poesia transparece a verdade,

como transparece a mentira.



Se é verdade,

surgem sentimentos nobres

e engravidam ideais.



Se há mentiras,

a barriga sente-se desconfortável,

o estômago se revolta

e a azia chega à boca,

recusando digestão.



O que é um poeta?



É um artista,

músico,

ou compositor?



O poeta

é o instrumento musical

que o Deus Pai criativo atrai

para transmitir

as suas verdades,

profecias

e composições.



O Deus Pai

convida hoje,

o poeta,

para reativar

a sensibilidade

para ouvi-lo,

conhecê-lo e

com Ele conviver.



Veja que não há violência

nos poetas.



Perceba como é suave,

mansa e convincente

sua comunicação.



A poesia

é a partitura

e o poeta é o instrumento

que toca a melodia.



E o compositor não aparece.

Nem sequer o maestro

aparece no palco.



O poeta

se reporta

com as portas,

com as entradas

e saídas da vida.



O poeta se arrebenta

ou se compromete,

mas insiste

em reabrir as portas

do paraíso

e da imortalidade.



É um inconformado

com limites,

túmulos ou fronteiras.



Necessitamos dos poetas

que gostam da ousadia,

e como os profetas,

não se acovardam.



São livres.



Não obedecem as regras

dos complexos de inferioridade

ou superioridade.



Não se deixam encabrestar

por censuras pessoais,

grupais ou societárias.



Não se filiam

a qualquer tipo de organização

eclesial ou partidária.



Não possuem pátria,

nem raça,

nem religião.



O único poder ao qual prestam honras

é à autoridade que lhes impõem

a própria sensibilidade.



No poeta

não há falsidade,

nem máscara.



Há a coerência

com a verdade universal.



A verdade transmitida pelos poetas,

caindo em nossa interioridade,

brota espontaneamente,

sem recursos artificiais.



A maquiagem

é permitida,

se for para embelezar

e revelar a interioridade,

conhecida através dos símbolos e códigos.



De dia os homens trabalham.



Os poetas, quando trabalham,

acordam com suas poesias,

aqueles que dormem de dia.  



Está muito na cara,

os profetas vivem hoje,

nos poetas.



Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 12/01/2016.
eneaspb@gmail.com

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