O Profeta, o poeta
é um ser comprometido
com a verdade.
Onde eles a veem ou a descobrem,
sentem-se na obrigação
de divulgá-la,
de torná-la conhecida.
Acredite nos poetas e nos profetas.
Talvez eles estejam já lá mais na frente,
ou lá mais acima, vendo mais claramente,
sem influências de nevoeiros
ou avalanches de mentiras.
O que mais impressiona nestes personagens
é o desespero de se fazer entender.
Mas o que mais dói é a indiferença
pelo esforço feito,
não correspondido.
O profeta e o poeta,
pelo que são ou pelo que dizem, ou escrevem,
estão de mãos dadas, circundando todo o universo,
visitando outros mundos, descobrindo novidades,
trazendo para cá, boas notícias
para apáticos e indiferentes.
Os poetas provocam os mortos.
Olhando apenas o lado de fora,
permanecemos com a compreensão parcial,
pois estaremos vendo
e analisando
somente um lado da realidade.
Não vemos o todo.
Queremos conquistar uma nova ciência.
Uma ciência que nos possibilite
olhar o interior,
o lado de
dentro das coisas,
o lado misterioso da vida
que ainda guarda segredos.
A visão
que o Heipo procura aprender
e vivenciar
supõe
penetrar na interioridade
e na profundidade,
nas origens,
razões
e finalidades das coisas.
Há o mundo visível
e há o mundo do invisível.
Convém
conhecer também
o
lado de dentro das coisas.
O que vemos e sabemos que existe,
e o que não vemos também sabemos
que existe.
Conhecer e visitar
o que lá dentro existe,
parece-nos ser tão importante
a ponto de fornecer elementos
mais completos
para a avaliação
e conceituação
da parte externa,
que aparece.
Nós, humanos,
estamos dotados
com a capacidade conhecida
com o nome de inteligência.
Inteligência é uma palavra
composta de duas raízes latinas:
in que significa interior
e legere que significa ler.
Assim, inteligência
é a capacidade que temos
de ler por dentro,
penetrar o interior do objeto.
Nós estamos acostumados
a ver e a avaliar
tudo o que cai sobre o nosso olhar.
Sobre o que não vemos,
nos aventuramos
ou nos arriscamos
quando falamos.
Existem atualmente muitas ciências
que estudam o exterior
para entender sobre o interior.
Por exemplo, os médicos,
através de estudos e pesquisas,
sabem muito sobre nossas doenças
quando analisam nossa face,
tomam nossa temperatura,
observam a pupila dos nossos olhos
e a cor da nossa pele.
Os psicólogos
avaliam nosso grau de estresse
pelas rugas da nossa face
ou pela agressividade
das nossas palavras.
Nossa maneira de ser,
nossa postura,
nossos atos,
às vezes,
falam mais claramente
de nós
do que nossas próprias palavras.
O poeta disse:
“Pare de falar
e deixe que teus
atos
falem de você”.
Há um universo
quase infinito
dentro das coisas
e, muitas vezes,
desconhecido.
O lado de dentro das coisas
é outro mundo
a ser pesquisado
e conhecido.
Não há pessoa
que tenha autoridade
para afirmar
que não há nada lá dentro
só porque não se vê.
O único obstáculo
é a rapidez
e a superficialidade.
Estes dois elementos modernos
dificultam o cultivo da
ciência
do lado de dentro das coisas.
A cultura
na qual estamos envolvidos
quase só ensina
a cultivar
a aparência,
isto é, só o que aparece,
o que brilha
e o que atrai.
Pouca importância se dá
aos poetas, artistas,
filósofos e
teólogos,
que procuram teimosamente
penetrar pelos caminhos,
lá de dentro,
desejando, cada vez mais,
a leitura substanciosa,
do interior das coisas.
Você já ficou maravilhado
diante da grandeza escondida
na pequenez de uma criança?
Quando escutou
o canto dos passarinhos,
percebeu que aquela melodia
vinha de dentro do pássaro?
Quando ouviu o ruído suave
dos pequenos riachos
e quedas de água,
percebeu que o riacho estava vivo,
expressando-se?
Quando olhastes
para um entardecer colorido,
viste algum pintor escondido?
Quando percebestes
o barulho do vento nas árvores,
movimentando-as,
percebestes ali um elemento real
e invisível?
Quando o vento veio visitar-te,
balançando seus cabelos,
aceitaste sem medo,
as carícias deste fantasma?
Como é fácil ignorar
as belezas que nos envolvem.
Um beliscão na nossa sensibilidade
seria bem-vindo
para nos acordar
e percebermos
que estamos prejudicados.
Perdemos alguns elementos
da nossa personalidade
que inflacionaram
ou até arruinaram
nossa percepção.
O que é que existe em nós,
que reduz nosso potencial,
tampa nossos ouvidos,
bloqueia nossa sensibilidade,
entorpece nossos sensores
impedindo-nos de curtir
as coisas boas
e belas da vida?
Por que alguns curtem tudo isso?
Por que outros não sentem nada?
Para muita gente,
o que há de bom,
de bonito,
harmonioso e suave
nesta natureza toda,
funciona como despertador
e acorda nossas potencialidades
de admiração, raciocínio e curtição,
e até nos leva mais adiante.
O que há na raiz
de todas as coisas?
O que há por dentro
de cada elemento,
de cada pessoa,
de cada realidade,
seja visível
ou invisível?
Talvez exista ali
uma mensagem a ser decifrada,
talvez um mapa de um tesouro,
talvez um fórmula de um remédio,
talvez algo
de que estamos precisando
e esteja no nosso nariz
e não 'vemos'.
Quando fizermos
para nós mesmos,
estas perguntas,
as respostas
começarão a aparecer.
As respostas
não estão sempre prontas.
Quando nos colocamos
em posição de alerta
e acionamos
nossas próprias potencialidades internas,
aí, vamos entrando
e penetrando além das aparências,
para além dos rostos humanos,
e descobrimos a dignidade,
a fonte do valor.
Aí, mais em frente,
vamos para além
para além das fronteiras,
das fronteiras da pele,
e descobrimos o sangue quente
a vivificar as criaturas humanas,
e também os animais.
E aí vamos mais fundo
perguntando-nos
pelo espírito que anima
e que dá vida
à nossa massa corporal.
Que coisa é isso?
Agora começa ficar difícil
a fala e as letras.
Do que é que estamos falando
e escrevendo agora?
Estamos tentando
nos entreter com o espírito.
Como deixar de se perguntar
pelas expressões da vida?
Como não perceber
um espírito por trás
dos movimentos?
Como não entendemos ainda
a física dos ventos?
Como não entender
a seiva que caminha
pelas raízes,
e circula no interior dos troncos
até a ponta dos galhos,
até as folhas,
frutos e sementes,
trazendo vida e alimento?
Há vida, movimento, energia
dentro das coisas.
Algum tipo de ferramenta
foi acoplado
dentro de nós,
que permite-nos
ver além de qualquer paisagem
além de qualquer fronteira,
além da fisionomia.
Estamos ajustando nossa vista
para além dos horizontes da compreensão,
além das fronteiras
do racional,
além do normal e aceitável.
Teremos de exigir o uso do binóculo,
que aproxima virtualmente
os objetos focados?
O que viria a ser este binóculo?
Sim, já somos capazes.
Somos capazes de enxergar
a mensagem que o mundo carrega.
Cada coisa é um Sacramento,
um sinal ou um código a ser decifrado.
No efêmero que passa,
podemos perceber
o eterno que não passa.
Não é o tempo que voa;
voamos nós
e o tempo fica.
No tempo,
conseguimos ler a mensagem
daquilo que é eterno.
Na bondade humana,
nas criaturas todas,
lemos nas entrelinhas
o Criador de todas as coisas.
Tudo o que está ao nosso dispor,
tanto na natureza
como na nossa própria natureza humana,
nossas capacidades
e talentos,
são ferramentas disponibilizadas
pelo nosso Pai dos céus,
nosso Criador.
O mundo todo,
a natureza imensa e profunda,
funciona como um vidro transparente
no qual conseguimos
ler dentro das coisas,
sinais, literatura, romance
e a paixão de um Pai
que ama seus filhos
e lhes entrega um jardim
para ser cultivado.
Lá dentro do dentro tem coisa ...
Muitos livros do escritor Leonardo Boff e do Frei Carlos
Mesters ensinam esta ciência. Muitas reflexões contidas neste texto tiveram neles a fonte
da inspiração.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
eneaspb@gmail.com