domingo, 16 de agosto de 2015

Mais do que a água, procuramos a fonte 19

A constituição física,
psíquica, moral e espiritual do ser humano
é de carência.
Limitação parcial,
a caminho
e em processo
de aperfeiçoamento.

No corpo físico
     temos fome e sede constante,
                        sentimos frio e calor. 

Na esfera psíquica
estamos sempre insatisfeitos e ansiosos,
mal amados, mal compreendidos;
mal sabemos amar
e não sabemos compreender globalmente.

Na área moral
     exige-se esforço e aprendizado,
                     repetição, treinamento. 

Procuramos as fundamentações
e só depois acionamos
a decisão de querer melhorar.

A sensação que sempre nos acompanha
é a de que somos seres incompletos. 

Estamos sempre com fome,
com sede e procurando coisas ou alguém
que nos contente e complete. 

Esta é a nossa maneira de ser,
ainda individualistas
e egoístas. 

Raramente nos propomos compreender,
contentar ou completar alguém. 

Esta seria a maneira ideal de viver,
altruístas,
revelando que somos filhos
do Paizão do céu.

Porém, a experiência ou sensação
de imperfeição
nos deixa inquietos. 

Percebemos os valores
e queremos buscar
e fazer o bem,
mas nos sentimos fracos
e impotentes.

A inquietude
    é como uma sede constante
         que arde,
               cutuca
                   e morde. 

É um sentimento de indefinição,
de não satisfação. 

Sintetizando estes sentimentos
ou sensações,
digamos que temos sede.

Estamos sempre com sede
de algo mais.   

A sede constante
mantém-nos abertos,
à procura.

Se não tivéssemos sede,
estaríamos satisfeitos
e fechados.

Existe uma carência no ser humano,
sempre buscada,
procurada na água
para saciar uma sede.

O gosto da água saciando,
é ao mesmo tempo,
cultivo da sede.
Jamais conseguimos saciar
certo tipo de sede.

Mesmo estando no caminho do encontro,
a expectativa é sempre uma sede,
que como febre saciada,
a sede persiste
e a febre continua.

Se ainda não nos convencemos
de que já somos eternos,
é porque está faltando
um maior aprofundamento
sobre esta verdade.

Somos eternos ou seremos eternos.
Já temos qualquer ‘coisa’ de eterno
que faz a gente gostar
das coisas misteriosas
e invisíveis
que nos deixam curiosos,
e nos põem à procura.

Alguma coisa está nos faltando.

Há um vazio na nossa natureza humana
que só pode ser preenchido
com algo que seja permanente,
eterno, infinito e definitivo.

Esta dimensão
é aquela que o Heipo procura.

Procura com teimosia.
É uma sede que mesmo saciada,
permanece sedenta.

Há neste processo,
sinais,
acenos,
convites
e promessas.

Custe o que custar,
o Heipo,
a dimensão bondosa
que existe em cada ser humano,
não desiste.
O desejo de saciar esta sede
aciona a virtude da teimosia.

Existem no nosso mundo
realidades visíveis
com as quais nos habituamos. 

Existem também realidades invisíveis
com as quais não estamos habituados.
Não é porque são invisíveis
que deixam de ser reais.

Não são irreais,
como a sede que existe e que não se vê,
como o vento que existe
e que não enxergamos.

A sede é diferente da água.

A água é materialidade.

A sede é uma falta,
é uma carência.

A sede sacia-se,
momentaneamente,
mas volta e permanece,
como a fome
que está sempre necessitando
de alimentos.

Para a fome do nosso corpo biológico
damos alimentos.

Para a sede, do nosso corpo biológico damos água.

Para a fome e sede do nosso espírito
e da nossa alma,
por mais que os alimentemos,
a fome e a sede permanecem.

Das ciências que estudamos,
pesquisamos e aprendemos,
dos conhecimentos que adquirimos,
existe uma ciência
que nos faz sentir pequenos,
insignificantes
e fracos,
pois aumenta nossa fome
e triplica nossa sede.

A sede saciando,
a fome alimentando.
A sede aumentando,
a fome faminta.

Nada contenta
e nada sacia.

Com sede buscamos
a fonte da nossa origem.

Cada vez mais sedentos
e cada vez mais
insaciados.

A vida é dinâmica.

Na dinâmica da vida
está o movimento.

O processo da procura
leva à busca das respostas.

É a vida que vibra,
palpita e anseia
pela continuidade.

Esta busca e esta sede
nos orientam
para fora das fronteiras
dos nossos cinco sentidos.

Empurra-nos para fora
da lógica e do natural.

Sugere algo mais.

Persiste um impulso
para algo
que seria ou será
o alvo, o destino,
a razão,
a causa
ou a fonte da sede.

Não é a água que mais queremos.

A sede é passageira.

É a fonte que desejamos,
pois que é necessária
para sempre.

Achando a fonte,
temos a água pura. 

Somos filhos.
Procuramos nosso Pai. 

É em volta Dele
que desejamos estar,
atendendo todas as nossas necessidades vitais. 

Não viver a dimensão de filhos
é viver a dimensão da orfandade,
com todas as consequências ruins
que a orfandade proporciona. 

Eneas Paulo Budel Bogucheski         

eneaspb@gmail.com 

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