sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Estão roubando meu tempo 10


Nesta noite sonhei 
que estava sendo assaltado.

E aí acordei, suado, gritando:
“Por favor, acudam-me,
estão levando todo meu tempo”.

Um sentimento de esvaziamento,
como se estivessem sugando minha fortuna,
disponibilidades recebidas 
e acumuladas ao longo dos anos.

Meio acordado e meio dormindo
não acreditando na real possibilidade,
pensando ou sonhando,
olhando-me como quem está de fora,
sem querer intrometer-me 
para não ter que participar
no problema dos outros.

Mas não havia saída:
assistia-me sendo roubado.
O barulho vinha, batia e me atordoava.
A correnteza vinha e me derrubava.

A correnteza aumenta e tende a aumentar
a fúria da tempestade na forma de avalanche,
vem pela mídia, uivando sons confusos
e anestesiantes.

Tentava fincar o pé no chão,
querendo permanecer  
na posição vertical e alerta,
mas vinha de novo o vento 
tentando me derrubar.

Faltava-me no que segurar-me
porque em todos os suportes,
em tudo o que havia de seguro, 
já estava caído,
rolando na correnteza, 
deitado, como sem vida,
entregues na posição 
e condição de desistência.

Deitado, rolava, rodovida abaixo.
Quanto mais rolava,
na horizontal, sem resistências,
menos resistências sobrava.

Esvaziava ideias e ideais.
Despersonalizava meu ser.
Ficava sem norte e sem sul,
sem bússola e sem GPS.

Saia de mim o que era meu e do meu Deus.
Eu não mais me pertencia.
Eu estava sendo roubado de mim mesmo.
E permitia...

II

De vez em quando
um ídolo, um artista, um poeta,
... um profeta,
ainda de pé, resistindo
tentava me segurar
colocando-me de novo em pé,
insistindo, ‘finca teu pé na profundidade do chão
e levante as mãos para o céu”.

Nestes momentos levantava as mãos
e esticava meus braços.
tentando segurar 
em apoios invisíveis.

É inacreditável mas é a verdade
assim provam as experiências e os testemunhos
de quem sobreviveu e não sucumbiu.

A história conta o número de mártires e santos.

A história testemunha 
que as promessas se cumprem.

Quem no alto se apoia, mesmo que caia,
não se entrega.

A fé e a esperança alimentam
quem quer eternizar-se.

Nestes momentos 
em que conseguia permanecer em pé,
recuperava as forças.

O ar entrava pelos pulmões.
A consciência recobrava.
Em alerta de novo me posicionava.

III

Socorro.
É verdade.
Estão levando todo meu tempo.

Os ladrões são inofensivos e atraentes,
Um deles é feminino: a televisão e o outro é o computador.

Estes dois bons e inofensivos
Instrumentos de progresso
roubam quase todo o tempo ...

... até a parte do tempo que me foi dado
para investir na eternidade.

IV

Dizem os profetas
que tenho espírito.

Que este espírito é um tipo de vida
que ganho junto com outros dons e bens
que estão aqui na terra.

Dizem que o espírito tem outra morada,
não aqui na terra, mas no céu.

Se isto é verdade,
é o que ensinam as religiões,
então é de pé que devo permanecer.

Então o tempo 
tenho que recuperar 
e conservar.

A correnteza 
e as ventanias da vida horizontal
não querem deixar-me cultivar este bem, 
este valor do espírito.

Estão roubando o tempo 
que tenho para construir minha eternidade.
Pois, se deitar, rolo e entro no rolo 
e me acomodo, e desisto.

Só resta-me uma esperança,
permanecer de pé,
manter-me ocupado com o tempo
que me sobra, para construir o futuro,
na segurança da eternidade,
No porto seguro, valor absoluto.

Se me roubam todo o tempo útil que tenho,
Como vou investir num bem permanente e eterno?

Preciso defender-me.
Querem roubar o tempo que tenho 
para conseguir conquistar a eternidade. 

Quem fará isso por mim, se não eu?


Eneas Paulo Budel Bogucheski 
eneaspb@gmail.com 

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