Nesta noite sonhei
que estava sendo assaltado.
E aí acordei, suado,
gritando:
“Por favor,
acudam-me,
estão levando todo
meu tempo”.
Um sentimento de
esvaziamento,
como se estivessem
sugando minha fortuna,
disponibilidades
recebidas
e acumuladas ao longo dos anos.
Meio acordado e meio
dormindo
não acreditando na
real possibilidade,
pensando ou sonhando,
olhando-me como quem
está de fora,
sem querer
intrometer-me
para não ter que participar
no problema dos
outros.
Mas não havia saída:
assistia-me sendo
roubado.
O barulho vinha,
batia e me atordoava.
A correnteza vinha e
me derrubava.
A correnteza aumenta
e tende a aumentar
a fúria da tempestade
na forma de avalanche,
vem pela mídia,
uivando sons confusos
e anestesiantes.
Tentava fincar o pé
no chão,
querendo
permanecer
na posição vertical e alerta,
mas vinha de novo o
vento
tentando me derrubar.
Faltava-me no que
segurar-me
porque em todos os
suportes,
em tudo o que havia
de seguro,
já estava caído,
rolando na
correnteza,
deitado, como sem vida,
entregues na posição
e condição de desistência.
Deitado, rolava,
rodovida abaixo.
Quanto mais rolava,
na horizontal, sem
resistências,
menos resistências
sobrava.
Esvaziava ideias e
ideais.
Despersonalizava meu
ser.
Ficava sem norte e
sem sul,
sem bússola e sem
GPS.
Saia de mim o que era
meu e do meu Deus.
Eu não mais me
pertencia.
Eu estava sendo
roubado de mim mesmo.
E permitia...
II
De vez em quando
um ídolo, um artista,
um poeta,
... um profeta,
ainda de pé,
resistindo
tentava me segurar
colocando-me de novo
em pé,
insistindo, ‘finca
teu pé na profundidade do chão
e levante as mãos
para o céu”.
Nestes momentos
levantava as mãos
e esticava meus
braços.
tentando segurar
em
apoios invisíveis.
É inacreditável mas é
a verdade
assim provam as
experiências e os testemunhos
de quem sobreviveu e não
sucumbiu.
A história conta o
número de mártires e santos.
A história testemunha
que as promessas se cumprem.
Quem no alto se
apoia, mesmo que caia,
não se entrega.
A fé e a esperança
alimentam
quem quer
eternizar-se.
Nestes momentos
em
que conseguia permanecer em pé,
recuperava as forças.
O ar entrava pelos
pulmões.
A consciência
recobrava.
Em alerta de novo me
posicionava.
III
Socorro.
É verdade.
Estão levando todo
meu tempo.
Os ladrões são
inofensivos e atraentes,
Um deles é feminino:
a televisão e o outro é o computador.
Estes dois bons e
inofensivos
Instrumentos de
progresso
roubam quase todo o
tempo ...
... até a parte do tempo
que me foi dado
para investir na
eternidade.
IV
Dizem os profetas
que tenho espírito.
Que este espírito é
um tipo de vida
que ganho junto com
outros dons e bens
que estão aqui na
terra.
Dizem que o espírito
tem outra morada,
não aqui na terra,
mas no céu.
Se isto é verdade,
é o que ensinam as
religiões,
então é de pé que
devo permanecer.
Então o tempo
tenho
que recuperar
e conservar.
A correnteza
e as
ventanias da vida horizontal
não querem deixar-me
cultivar este bem,
este valor do espírito.
Estão roubando o
tempo
que tenho para construir minha eternidade.
Pois, se deitar, rolo
e entro no rolo
e me acomodo, e desisto.
Só resta-me uma
esperança,
permanecer de pé,
manter-me ocupado com
o tempo
que me sobra, para
construir o futuro,
na segurança da
eternidade,
No porto seguro,
valor absoluto.
Se me roubam todo o
tempo útil que tenho,
Como vou investir num
bem permanente e eterno?
Preciso defender-me.
Querem roubar o tempo que tenho
para conseguir conquistar a eternidade.
Quem fará isso por
mim, se não eu?
Eneas Paulo Budel
Bogucheski
eneaspb@gmail.com
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